Nubia
Hanciau é Professora titular
do Programa de Pós-Graduação,
Mestrado em História da
Literatura da Fundação
Universidade Federal do Rio Grande
(FURG). Doutora em Literatura
Comparada pela Universidade Federal
do Rio Grande do Sul, representou
o Brasil junto à AIÉQ
(1998-2000). Foi Presidente da
ABECAN no biênio 2004-2006;
co-organizou L’Amérique
Française: introduction
à la culture québécoise,
com Alain Bélanger e Sylvie
Dion (1998), A América
Francesa: introdução
à cultura quebequense (1999,
tradução em co-organização
com Maria Bernadette Velloso Porto)
e A voz da crítica canadense
no feminino, com Eliane Campello
e Eloína Santos (2001).
Sua tese (Prêmio Air Canada
2004) deu origem ao livro A feiticeira
no imaginário ficcional
das Américas, laureado
com o Prêmio Pierre Savard
2005; em 2006 o Ministério
das Relações Internacionais
do Canadá elegeu-o um dos
30 livros notáveis no âmbito
dos estudos canadenses. Um de
seus capítulos foi publicado
na International Journal of Canadian
Studies/Revue internationale d’études
canadiennes. 30 Years of Canadian
Studies around the World/30 ans
d’études canadiennes
dans le monde. Em 2006 organizou
a coletânea Brasil / Canadá:
visões, paisagens e perspectivas,
do Ártico ao Antártico.
Como tradutora, entre outros textos,
publicou A gaiola de ferro, tradução
de La cage, de Anne Hébert
(2003); organizou e traduziu os
dois primeiros artigos dos Cadernos
do PPG-Letras da FURG, série
Traduções.
REVISTA
ACOALFAPLP: De um modo
geral, como a senhora vê
as relações acadêmicas
entre os países do Norte
e do Sul? Prof.ª Nubia:
Faz mais ou menos um século
que o Canadá mantém
laços privilegiados com
o Brasil. Foram os canadenses
que projetaram as redes hidroelétricas
nas grandes cidades do Sul. A
Brascan, primeira companhia canadense
a implantar-se no Brasil, já
festejou 100 anos! Foram também
os canadenses que dotaram os grandes
centros urbanos de seus primeiros
serviços de transporte
coletivo rápido (os bondes),
além de fundar a primeira
empresa de telefone de São
Paulo. Numerosos missionários
colaboraram para aliviar a pobreza
nas regiões menos favorecidas,
contribuindo para a aproximação
dos países. No plano diplomático,
a primeira delegação
canadense no Brasil data de 1941.
Nessa avenida de mão dupla,
eu poderia melhor delimitar a
avaliação quanto
aos intercâmbios acadêmicos
entre o Brasil e o Quebec, que
iniciaram nos anos 1980. Até
então o mundo francófono
das Américas (Quebec e
Antilhas) era desconhecido no
espaço cultural brasileiro.
Sua descoberta, incorporação
e reconhecimento, de elevada relevância
simbólica, ocorreu nessa
década no âmbito
das universidades brasileiras.
REVISTA:
E no caso das relações
entre Brasil e Canadá? Prof.ª Nubia:
Mais tarde os laços se
estenderam entre o Canadá,
o Brasil e outros países
latino-americanos. Cabe assinalar
os efeitos benéficos desta
reciprocidade não apenas
para os francófonos das
Américas, mas também
para todos aqueles que acreditam
nos métodos comparatistas
como forma de aumentar os conhecimentos
do Canadá no Brasil e do
Brasil no Canadá. Hoje
os estudos canadenses no Brasil
encontram-se consolidados e revelam
o quanto as perspectivas culturais
transversais podem refletir as
grandes articulações
da sociedade. Por outro lado,
aponta-se para áreas de
excelência onde o Canadá,
país atraente e modelar
em muitos setores, prima pela
tradição nos debates.
Contudo, estas aproximações
não poderão mostrar
seu verdadeiro valor e ser verdadeiramente
frutuosas a longo prazo sem uma
melhor compreensão das
especificidades culturais respectivas.
Pois, sem intercâmbios culturais
e sociais regulares, intensos
e profundos, perdem-se belas oportunidades
de inovações próprias
à mestiçagem tão
característica do Brasil
e do Canadá. Há
de se constatar – apesar
disso – a existência
de um nítido desequilíbrio
entre o Brasil e o Canadá.
Vários Núcleos de
Estudos Canadenses (NECs) são
ativos no Brasil há mais
de quinze anos, contribuindo diretamente
a favorecer o conhecimento e a
compreensão do Canadá,
tão importante para as
relações a longo
prazo. O inverso não é
verdadeiro, e o Brasil ainda aparece
como um país desconhecido.
Embora a música brasileira
seja tocada nas rádios
e algumas atividades isoladas
aconteçam, o conhecimento
do Brasil no Canadá continua
marcado por uma imagem que não
corresponde ao Brasil moderno,
o das grandes cidades, do desenvolvimento
científico, um país
que pretende tornar-se ator de
primeiro plano tanto nas Américas
quanto no mundo. No Canadá,
não existia até
2001 nenhum centro de referência,
de estudos ou pesquisas sobre
o Brasil, o que representava uma
lacuna com efeito negativo sobre
o conjunto das relações
culturais, econômicas e
políticas. A UQAM decidiu
preencher essa lacuna e incrementar
as relações diversificadas
de longa data com o Brasil, do
ponto de vista geográfico,
científico, cultural e
institucional. Sob este ângulo,
a UQAM foi considerada a instituição
ideal para desenvolver um Centro
Brasil-Canadá, cuja visão
faz justiça à riqueza
e à complexidade brasileiras.
Criado pela resolução
do Conselho de administração
daquela Universidade, em março
de 2001, o Centro de Estudos e
Pesquisas sobre o Brasil (CERB)
foi inaugurado no dia 6 de setembro
de 2001, véspera da Festa
Nacional do Brasil, dirigido por
Bernard Andrès desde sua
criação até
2004, com sede no Pavilhão
Judith Jasmin da UQAM, dirigido
hoje por Gaëtan Tramblay,
REVISTA:
Qual a importância
destas relações?
(para quem, como, por quê) Prof.ª Nubia:
Em 2006 completaram-se 80 anos
de relações diplomáticas
formais entre o Brasil e o Canadá
e mais de 60 do estabelecimento
das embaixadas brasileira no Canadá
e canadense no Brasil. Notáveis
transformações verificaram-se
desde então no que concerne
à presença canadense
no Brasil e à relevância
do nosso país para o Canadá.
Em novembro de 2004 o Brasil foi
anfitrião do Primeiro-Ministro
Paul Martin, cuja visita sedimentou,
de maneira definitiva, o conceito
do que se denomina na vida diplomática
de relações bilaterais.
O Brasil tem hoje boas relações
comerciais com o Canadá,
com tendências a ampliar
esse comércio. Somos importantes
parceiros e os dois países
buscam elevar esse entendimento
a um novo patamar, a fim de enfrentar
os desafios globais com os quais
nossas nações se
deparam. Para ambos, o grande
desafio bilateral é o conhecimento
entre os dois países multiculturais
e multiétnicos. Desde a
criação da ABECAN,
Associação Brasileira
de Estudos Canadenses, em 1991,
a comunidade universitária
brasileira tem se beneficiado
de um diálogo privilegiado
entre professores, pesquisadores
e escrito¬res canadenses que
têm trazido sua experiência
visando a propiciar uma complementaridade
tecnológica e intelectual
por meio da qual tem sido possível
reavaliar e redimensionar uma
série de parâmetros.
A avenida amplia cada vez mais
sua “mão dupla”;
e a bilateralidade, característica
salutar desse diálogo,
concretiza-se na possibilidade
oferecida aos brasileiros de constituírem
equipes de pesquisa com universitários
canadenses ou de integrarem publicações
coletivas, configurando um sistema
de trocas que tem enriquecido
os parceiros do norte e do sul
da América.
REVISTA:
Neste sentido, está envolvida
em algum projeto hoje? Fale-nos
sobre isso. Prof.ª Nubia:
Sim, enquanto editora da revista
Interfaces Brasil-Canadá
e membro da ABECAN, continuo envolvida
com os estudos canadenses. Nessa
função, recebo anualmente
um número considerável
de textos, caracterizados pela
multidisciplinaridade. Na oitava
edição (2008), recebemos
mais de 40 propostas! Além
disso, tenho produzido artigos
para publicações
no âmbito dos estudos canadenses,
uma opção para o
exercício da diversidade.
Nenhum país melhor do que
o Canadá, com seu universo
cultural plural, múltiplo
e heterogêneo, para favorecer
o diálogo interamericano!
Redes de pessoas no Brasil, na
América Latina e no Canadá,
particularmente no Quebec aos
poucos vêm se firmando.
O ambiente aberto e democrático
dos meios universitários
canadenses propicia cada vez mais
projetos de intercâmbio.
Desde 1990, quando iniciei a dissertação
de mestrado sobre uma das autoras
mais expressivas do Quebec, Anne
Hébert, mais tarde com
a tese de doutorado, em que Hébert
dialoga com Nancy Huston, os artigos
e as incursões nesse universo
comparatista se prolongam, sem
interrupção, até
hoje.
REVISTA:
Neste contexto – Brasil/Canadá
– como vê a relação
entre língua e cultura
portuguesa e o bilingüismo
canadense? Prof.ª Nubia: No
interior de quase todos os países
do mundo as línguas em
contato possuem um estatuto mais
ou menos definido. Cada língua
– meio de expressão
de uma comunidade – veicula
uma cultura, referências
particulares a respeito da vida,
da realidade, do pensamento, dos
valores e interesses sociais particulares
que lhe subtraem a neutralidade
com relação à
língua vizinha; cada língua
é o produto complexo e
sistemático de uma comunidade
destinada a exprimir o que ela
é e o que quer ser, e não
permitiria, sem razões
graves ou resistência, ser
substituída ou ultrapassada
por outra língua, outra
cultura. Assim como para a espécie
humana, a função
natural de uma língua é
a de manter-se, perpetuar-se.
Oitenta milhões de pessoas
no mundo falam francês.
O Canadá, membro ativo
da Organização Internacional
da Francofonia, país oficialmente
bilíngüe, conta quase
oito milhões de francófonos.
No Quebec o francês é
a língua materna de mais
de 80% de quebequenses, e no âmbito
do Canadá é o idioma
de mais de 25% de canadenses,
cuja maioria vive no Quebec.
Quanto ao português, mais
pessoas o falam como língua
materna do que francês,
alemão, italiano ou japonês.
Para grande parte dos aproximadamente
230 milhões de lusofalantes,
talvez seja incompreensível
que o resto do mundo freqüentemente
considere sua língua menor
e que seus romancistas, poetas
e compositores passem despercebidos.
Um esforço está
sendo feito aqui no maior país
do mundo a falar português
para corrigir essa situação.
Em 1996, Brasil e Portugal uniram-se
a cinco nações africanas
– Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau,
Moçambique e São
Tomé e Príncipe
– para fundar a Comunidade
de Países de Língua
Portuguesa. O português
recentemente foi designado língua
oficial da Organização
de União Africana, resultado
dos esforços da comunidade.
O escritor Prêmio Nobel
português José Saramago,
que mora na Espanha, afligiu-se
publicamente com a possibilidade
de o português ser superado
pelo inglês e o espanhol.
Os hispanofalantes algumas vezes
brincam que o português
é simplesmente um “espanhol
mal falado”. Mas, por causa
do tamanho do Brasil e de sua
economia dinâmica, cidades
em países vizinhos, tais
como Buenos Aires e Santiago,
expõem cartazes e distribuem
panfletos oferecendo cursos de
português. O que vem comprovar
que as fronteiras são cada
vez mais apenas símbolos,
e que a língua é
um instrumento vivo, em movimento,
o melhor instrumento de diálogo,
quer seja escrito, oral ou através
do ciberespaço. Redutor,
o monolingüismo não
permite ver o mundo além
da própria paróquia,
por outro prisma que não
seja o de uma única língua.
A abertura à francofonia,
à lusofonia, à hispanofonia
americanas, que impeçam
o monopólio da anglofonia,
representa uma riqueza, uma lufada
de oxigênio em contexto
marcado pela influência
de uma cultura hegemônica,
a abertura a um universo cultural
plural, múltiplo e heterogêneo
que nos permita estabelecer diálogos
com diversos países.