_______ Em
abril de 2006,
um grupo de quatro educadoras
brasileiras chegou a São
Tomé e Príncipe
como integrantes do acordo de
cooperação entre
os governos dos dois países,
com o objetivo de dar continuidade
ao Projeto de Cooperação
Técnica Alfabetização
Solidária. Desde 2002,
o Projeto Alfabetização
Solidária em STP vem
contribuindo na alfabetização
de jovens e adultos na nação
africana. Menor país
do continente e com 193 mil
habitantes, São Tomé
e Príncipe é formado
por oito ilhas, localizadas
no Oceano Atlântico, a
250 quilômetros da costa
oeste africana.
_______ Participam
da missão Ednéia
Gonçalves, assessora
técnica da Alfabetização
Solidária, Francisca
Maciel, professora da Faculdade
de Educação da
Universidade Federal de Minas
Gerais (UFMG), Ana Lúcia
Silva Souza, formadora do Programa
de Educação de
Jovens e Adultos (EJA) da ONG
Ação Educativa,
e Lorita Maria de Oliveira,
educadora e professora da Universidade
de Passo Fundo (UPF). A proximidade
cultural entre os dois países
ajudou, em muito, o andamento
do projeto, assinado em 2001
e com atuação
em outros países africanos
de língua portuguesa,
como Cabo Verde e Moçambique,
e também em Timor Leste
e Guatemala.
_______ Ednéia
e Ana Lúcia observam
que, apesar das diferenças,
Brasil e São Tomé
e Príncipe têm
diversas características
em comum. “Em geral, alimentamos
uma idéia um pouco mítica
em relação à
África. Não sabemos
muito sobre o continente. O
trabalho é uma excelente
oportunidade para também
aprender”, explica Ednéia.
“Como educadoras, nossa
principal preocupação
é saber quais são
as necessidades de usos das
línguas no cotidiano
e compreender a importância
de cada uma delas na vida das
pessoas”, comenta Ana
Lúcia.
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_______ Acoalfaplp:
São Tomé e Príncipe
têm cinco línguas,
como o português, idioma
oficial, e o crioulo. Em qual
língua serão alfabetizadas
as pessoas envolvidas no projeto
Alfabetização
Solidária?
_______ Ednéia
Gonçalves: A
Alfabetização
Solidária baseia sua
atuação internacional
no respeito à diversidade
histórica, lingüística
e sócio-cultural dos
países nos quais atua.
Identificamos em cada local
a diversidade lingüística
e status da língua portuguesa
(oficial, materna, segunda língua),
visando construir propostas
educacionais que integrem a
preservação da
diversidade das línguas
de comunicação
e o acesso ao idioma oficial.
Trabalhamos com as equipes locais
e a ação educativa
é desencadeada por alfabetizadores
que dominam a língua
materna e o português
(língua oficial). Indicamos
a língua materna como
matriz da ação
educativa e, o português,
como língua de integração
nacional.
_______ Acoalfaplp:
Como serão elaborados
os materiais didáticos
para os professores e alunos em
São Tomé e Príncipe?
_______ Ana
Lúcia Silva e Souza:
É importante ressaltar
que o material didático
terá a história
e a cultura de São Tomé
e Príncipe como fio que
costura todo o processo. Cabe
à Alfabetização
Solidária oferecer apoio
técnico para que as equipes
locais pesquisem e desenvolvam
materiais didáticos contextualizados
com a realidade local.
_______ Acoalfaplp:
Quais são os próximos
passos do projeto? Vocês
retornarão ao país?
_______ Ednéia:
O Projeto Alfabetização
Solidária em STP encontra-se
em sua terceira fase. Além
da capacitação continuada
de alfabetizadores, desenvolvemos,
nesta fase, apoio técnico
para a realização
de concurso de redação
e capacitação específica
da equipe técnica local,
com o objetivo de atualizar os
procedimentos de acompanhamento,
formação, avaliação
e registro de processos. Além
disso, orientamos a estruturação
do ensino recorrente (pós-alfabetização).
O trabalho continua e os passos
seguintes serão sempre
definidos a partir da demanda
formativa local. De acordo com
os roteiros, com as reflexões
e questionamentos, colocamo-nos
para responder ao que o país
solicita.
_______ Acoalfaplp:
Quais são os frutos do
projeto, a curto, médio
e longo prazo para a população
de São Tomé e Príncipe?
_______ Ednéia:
Atualmente o país conta
com 100 salas de aula espalhadas
pelas localidades de Lembá,
Cauê, Cantagalo, Mezóchi,
Neves, Lobata, Guadalupe, Trindade,
Água Grande e Príncipe.
A partir dos resultados desta
ação, o país
implantou salas de ensino recorrentes
(pós-alfabetização),
estruturando, desta forma, um
projeto denso de educação
de jovens e adultos. Em médio
e longo prazo, é possível
aumentar o número de raparigas
nas escolas — uma das preocupações
é a educação
das mulheres, um conjunto maior
de pessoas que possam buscar formas
de continuar os estudos, a valorização
da cultura local, entre outros
aspectos. Desta forma, podemos
falar em possibilidades em vislumbrar
dias mais prósperos para
um lugar tão maravilhoso
como é São Tomé
e Príncipe.
_______ Acoalfaplp:
E o que mais se pode dizer sobre
São Tomé e Príncipe?
_______ Ana
Lúcia: Ainda há
muito o que se fazer neste país
que apenas em 1975 conheceu a
sua independência. Também
há muito o que se conhecer.
Por ora, registramos a beleza
do verde que convive muito de
perto com os baixos índices
de desenvolvimento. Vive-se do
pequeno comércio, da agricultura
e quase que apenas disso. São
Tomé é, quase que
literalmente, a cara de uma parte
do Brasil. Aliás, Brasil
dá nome à praia
e a uma significativa festa popular.
As pessoas sabem muito do Brasil
até porque assistem, entre
outros, aos programas brasileiros.
Ao andarmos pelas ruas parece
que lá encontramos nossas
bisavós, nossas avós,
primos, tão grande é
a semelhança dos traços
físicos e culturais. As
roupas, raramente trajes tradicionais,
são coloridas, misturando
o que se ganha dos projetos de
ajuda internacional, o que se
compra nas lojas da cidade e o
que se amarra na cabeça
e nas cinturas das mulheres que,
de manhã à noite,
carregam coisas na cabeça.
Muito cedo, a cidade acorda e
começa a grande circulação
de pessoas pelas ruas. E muito
tarde, as vilas dormem. As pessoas
costumam ficar em frente às
suas casas, nas ruas de pouca
iluminação conversando,
de pé ou acocoradas. Por
lá ainda se contam histórias.
Nada de cinema e teatro. São
as festas que fazem a alegria
das pessoas. Comem-se comidas
saborosas à base de bananas
fantásticas, matabala (uma
espécie de mandioca) e
fruta-pão, e trabalha-se
muito para que dias melhores cheguem
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