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Hugo Varela Santos
 
por Nilce da SILVA
 
Revista Moçambrás: Por que este interesse em apoiar uma revista que trata da alfabetização em países de Língua Portuguesa?
Sr. Hugo Varela: Tenho deveres para com este país que tão bem me acolheu, em primeiro lugar. Segundo, porque acredito que um país só se desenvolve quando todos os cidadãos forem amplamente alfabetizados no sentido amplo da expressão.É um dever de todo cidadão cooperar sempre em prol de boas causas.

 
Revista Moçambrás: Pelo seu modo de falar, vejo que não é brasileiro. Onde o senhor nasceu?
Sr. Hugo Varela: Nasci em São Vicente de Cabo Verde, antiga colônia portuguesa.

Revista Moçambrás: Quais as lembranças que o senhor tem de Cabo Verde?
Sr. Hugo Varela: Lembranças sobretudo de um passado estudantil, já que bem cedo deixei Cabo Verde para estudar no exterior. Regressando 40 anos depois, achei tudo diferente, e o saudosismo de um passado meio esquecido veio à tona, me fazendo logo retornar.

Revista Moçambrás: Por que veio para o Brasil?
Sr. Hugo Varela: Coincidência, eu diria. Nos últimos meses da Faculdade de Engenharia de Telecomunicações, apareceu uma oportunidade para engenheiros virem para o Brasil, preferencialmente para aqueles que falavam inglês e português.

Revista Moçambrás: De quais maneiras poderíamos promover o aprendizado da Língua Portuguesa?
Sr. Hugo Varela: A Língua Portuguesa Clássica é sabidamente difícil por causa da sua gramática... Em virtude da independência de tantas colônias portuguesas, ela deixou de ser uma única língua, na verdade. A raiz ainda persiste, mas há desvios sensíveis e interpretações diferentes em cada lugar. Uma das melhores maneiras de se manter o vínculo é através de contatos culturais, universitários, intercâmbio de estudantes e afins.

Revista Moçambrás: Qual a sua visão sobre o continuísmo da Língua Portuguesa?
Sr. Hugo Varela: O tempo é implacável e tudo muda. Então, esperar que a Língua Portuguesa, ou qualquer outra, não mude é utopia. Vai mudar por diferentes motivos. A globalização ou mundo sem fronteiras, certamente, é um forte vetor neste sentido. Os
povos hoje se misturam de uma forma tão imperceptível que, muitas vezes, as pessoas nem percebem tal fato e, com isto, há um desvio natural das raízes.
Cada torrão onde se falava a língua portuguesa, hoje, até por motivos de confirmação da independência, robustece dialetos regionais que influenciam a língua mãe; nem pode ser diferente. Além de que a nova geração é muito mais independente, fazendo prevalecer o mais fácil, e não necessariamente o mais certo ou correto gramaticalmente.
Revista Moçambrás: Como o senhor vê o trabalho dos educadores no conceito de manutenção da Língua Portuguesa?
Sr. Hugo Varela:É um trabalho essencial e fundamental. Qualquer país precisa dominar corretamente a língua oficial, e em quase todas as ex-colônias portuguesas a língua oficial continua sendo o português. Portanto, louva-se a dedicação dos senhores professores que não medem esforços para levar e manter a verdadeira gramática aos diversos níveis educacionais. Esta tarefa não é fácil porque é uma cadeia de muitos níveis e dentro desses níveis há um desnivelamento educacional e comportamental muito diferente.
Até pouco tempo atrás o nível de analfabetismo nacional era muito grande, e nos últimos governos houve uma melhora acentuada neste campo. Muito resta por fazer, não só para erradicar o analfabetismo, que é o primeiro passo, mas também no aperfeiçoamento educacional posterior.

Revista Moçambrás: Como o senhor vê este aperfeiçoamento, então?
Sr. Hugo Varela: Refiro-me ao aspecto educacional como um todo, que é muito mais do que saber ler e escrever mais ou menos. O mundo atual é muito competitivo e está cada vez se tornando mais exigente. Assim, há a necessidade de se ter um sistema nacional educacional que venha a oferecer a excelência educacional. Para isto, acho essencial que a classe de educadores seja devidamente contemplada, conforme os méritos de cada um... Não me parece correto que um doutor especializado não seja devidamente compensado, proporcionalmente ao tempo de estudo dedicado, da mesma forma que um mestre seja contemplado devidamente, e que uma professora assim o seja...Afinal, deverá haver sempre o retorno correto sobre o capital investido. Nesse caso, além de dinheiro, seu tempo, sua dedicação e seu saber. Devemos encarar as profissões acadêmicas como meios de atingir objetivos pessoais, à semelhança de executivos de entidades privadas, cujas energias – capacidade de produzir trabalho - resultam em satisfação pessoal e retorno sobre o tempo investido em estudo ou pesquisas.

Entrevistado
Hugo Varela Santos
Empresário, atualmente Presidente da GT Group International do Brasil. Foi Presidente da Plessey ATE Telecomunicações, Presidente da DFV Automação e Robótica, Presidente da DFV Telecomunicações e Presidente da Moddata Telecomunicações. Foi o responsável pela implantação do projeto SEMCO da Prefeitura de São Paulo, projeto dos semáforos computadorizados da cidade de São Paulo. É graduado em Engenharia de Telecomunicações, Engenharia Mecânica, Administração de Empresas e possui vários outros cursos de especialização nessas áreas.